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CORRUPÇÃO

Corrupção aumentou na pandemia e coloca empresários e políticos em xeque

Instituto de Ciências Sociais quis conhecer a perceção dos portugueses sobre a corrupção. E ficou a saber, por exemplo, que as pessoas não estão disponíveis para denunciar casos.

10/10/2021 12h38
Por: Vanderlei Filho
Foto/Reprodução
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Os portugueses estão pouco ou nada disponíveis para denunciar casos de corrupção de que tomem conhecimento, porque "não compensa o tempo e os custos" e "as denúncias nunca resultam em nada". Ao mesmo tempo acham que a pandemia potenciou as hipóteses de existir corrupção e que os mundos empresarial e político são aqueles onde prevalecem os maiores índices de situações menos claras. E quando se fala neste tema as três palavras que rapidamente dizem são: política, roubar e dinheiro.

Estas foram algumas das conclusões a que os investigadores do Instituto de Ciências Sociais (ICS) chegaram após analisarem as respostas ao estudo de opinião "O que pensam os portugueses sobre a corrupção: perceções, atitudes, práticas".

As conclusões do trabalho, a que o DN teve acesso, permitem perceber que 53% dos inquiridos consideram que a corrupção aumentou em Portugal, opinião que mereceu mais destaque entre as mulheres e pessoas que se declararam politicamente de esquerda e com níveis de rendimento e instrução intermédios.

Por outro lado, a maior parte das respostas ao inquérito foram no sentido de achar que a pandemia fez aumentar a oportunidade para a corrupção. Neste particular, são os homens, e com afinidade política mais à direita e com instrução e rendimentos elevados, a defender esta ideia.

 

Suspeitos, mas votam neles

Neste trabalho, coordenado pelos investigadores Luís de Sousa e Pedro Magalhães, foi perguntado qual a explicação para que as pessoas votem em políticos envolvidos em casos de corrupção. E as respostas foram seis: "mesma cor política", "descrença na justiça", "rouba mas faz", "gratidão", "todos corruptos" e "integridade não é prioridade".

Ainda em relação aos políticos, esta é a palavra mais citada em resposta à pergunta: "Pensando no nosso país, quando ouve falar de corrupção, que palavras associa a esse assunto?"

A situação de exceção que Portugal enfrentou na resposta à pandemia provocada pelo SARS-CoV-2 que levou ao agilizar de muitas das práticas de controlo e fiscalização na aquisição de bens e serviços para responder a essa crise sanitária é encarada com muitas cautelas por parte dos inquiridos neste trabalho. E poderá ser esse um dos motivos para o aumento da perceção de que a corrupção aumentou no último ano. Neste ponto, 53% dos inquiridos mostraram essa opinião enquanto 33% acham que se manteve na mesma. As mulheres posicionadas na esquerda política, com nível de instrução obrigatório e com um rendimento familiar na ordem dos 1560 euros foram as que mais expressaram essa ideia, de acordo com o estudo.

Oferta de prendas ajuda

Outra das conclusões deste trabalho do ICS - inserido no projeto EPOCA: corrupção e crise económica, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia - é o facto de as pessoas reconhecerem que a oferta de subornos, presentes e troca de favores a funcionários públicos ajudou a resolver um problema ou a desbloquear uma decisão a uma pessoa conhecida (18%).

Por outro lado, só um pequeno grupo (7%) reconheceu que um funcionário público lhe pediu ou deu a entender que queria presentes ou favores em troca de serviço ou pediu um suborno.

Para a grande maioria das pessoas ouvidas (73%) a sua vida não foi "nem mais nem menos" afetada pela corrupção. Há, todavia, 22% dos inquiridos que responderam ter a sua vida sido mais afetada.

Não à denúncia

Uma certeza deixada por este inquérito é que a decisão de apresentar uma queixa envolvendo um caso de corrupção é muito difícil de acontecer. De acordo com o documento consultado pelo DN, apenas 1% dos 1020 inquiridos reconheceu que "denunciaria sempre um caso de corrupção". Uma larga parte, 33%, disse que não faria denúncia, pois "nunca resultam em nada", já 17% acham que "não compensa o tempo e os custos". Em termos regionais, as pessoas do Norte do país foram aquelas que mais razões apresentaram para não reportar casos que conhecessem.

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