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98% dos jornalistas negros apontam dificuldades para desenvolver carreira, diz estudo

O levantamento mostrou que, embora a população brasileira seja formada majoritariamente por pessoas negras (56,20%, segundo a PNAD/IBGE de 2019), somente 20,10% dos profissionais de imprensa se autodeclararam pretos ou pardos.

22/11/2021 09h18
Por: Vanderlei Filho
Foto/Reprodução
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No Brasil, 98% dos jornalistas que se declaram pretos ou pardos consideram que os profissionais de imprensa negros (classificação do IBGE para a soma de pretos e pardos) enfrentam mais dificuldades em suas carreiras do que os colegas brancos. O dado faz parte do estudo “Perfil Racial da Imprensa Brasileira”, realizado por Jornalistas&Cia, Portal dos Jornalistas, Instituto Corda e I’MAX.

O estudo, que marca o Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em 20.nov.2021, contou com três etapas: aplicação de questionário, de autopreenchimento, respondido por jornalistas de redação em atividade; execução de entrevistas telefônicas em complemento ao questionário; e realização de entrevistas telefônicas com jornalistas negros para mapear situações de discriminação e racismo na atividade profissional no país. No total, foram ouvidos 1.952 profissionais.

O levantamento mostrou que, embora a população brasileira seja formada majoritariamente por pessoas negras (56,20%, segundo a PNAD/IBGE de 2019), somente 20,10% dos profissionais de imprensa se autodeclararam pretos ou pardos. A expressiva maioria (77,60%) se autodeclarou branca. Além disso, de acordo com o estudo, dentre as pessoas brancas, 61,8% ocupam cargos gerenciais nas redações. Ao focar no grupo de pessoas que se autodeclararam negras, a pesquisa identificou que, ao contrário dos jornalistas brancos, os profissionais de imprensa negros são maioria (60,2%) em cargos operacionais, como o de repórter, redator e produtor. Minoria nos veículos de imprensa, jornalistas negros em cargos de gerência são ainda mais raros. 

Para o diretor da newsletter Jornalistas&Cia e do Portal dos Jornalistas, Eduardo Ribeiro, a imprensa brasileira está atrasada no que se refere à implementação de iniciativas que busquem diversidade e inclusão racial. “No caso do jornalismo, são muito poucas as ações engajadas na direção da diversidade e do antirracismo”, disse o jornalista, que liderou o estudo.

A disparidade entre jornalistas negros e brancos em cargos gerenciais reflete-se na remuneração. Segundo a pesquisa, a faixa salarial mais básica - até R$ 3.300,00 - predomina entre os profissionais negros (41,7%). O percentual é quase o dobro se comparado à proporção relativa dos profissionais brancos. Dentre eles, somente 22,9% se encontram nessa faixa.

Ribeiro afirma que atentar para a questão racial nas redações é essencial até mesmo para pensar em formas de aumentar a audiência dos veículos. “Será necessário que eles acelerem a contratação e o treinamento de profissionais negros para que esse número se aproxime dos índices da própria população, que certamente irá consumir mais informações quando se sentir representada, o que hoje não acontece”, disse o jornalista.

Para Flavia Lima, editora de diversidade da Folha de S.Paulo, um censo tem o potencial de dizer de modo mais preciso o quão distante a imprensa está de alcançar a diversidade racial. “A partir daí, é possível pensar em estratégias e estabelecer metas para que esses espaços de notícia espelhem melhor a sociedade em que vivemos, o que torna a cobertura jornalística mais democrática e plural”.

Embora a situação para os profissionais de imprensa negros tenha apresentado melhora em termos de representatividade, o relatório aponta o que vem sendo percebido nas redações: profissionais brancos obtêm mais promoções salariais e de cargos em comparação aos jornalistas negros. Eduardo Ribeiro assinala que, na posse de informações confiáveis, “as direções dos veículos poderão planejar a ampliação de quadros diversos, e não apenas em cargos operacionais”. Segundo ele, deve existir uma presença transversal de jornalistas negros, nos mais diversos níveis dentro das redações, “para que haja também protagonismo dos negros nas principais decisões”.

Racismo, discriminação e misoginia

Na terceira fase da pesquisa, em que foram realizadas 202 entrevistas com jornalistas negros, foi possível identificar tipos de ações racistas praticadas, como discriminação pela aparência e assédio racial, além do nível de incidência das ações nesse recorte. O cenário para as mulheres pretas e pardas é bastante delicado - 52,3% das entrevistadas dizem já terem sido vítimas de misoginia e racismo. Outros tipos de ações evidenciam esse contexto difícil, como o assédio sexual e o julgamento de que são incapazes. Entre os exemplos trazidos pelo estudo, está o de que as jornalistas negras são recorrentemente desacreditadas e não têm suas opiniões levadas em consideração.

A tentativa de minar a credibilidade das mulheres negras dentro das redações pode ter um impacto direto sobre a produção jornalística, que já é afetada pela falta de diversidade e inclusão na imprensa. Segundo Márcia Maria Cruz, coordenadora do Núcleo de Diversidade do jornal Estado de Minas, a presença e participação de pessoas negras nas redações é significativa para transformar a cobertura da imprensa, a começar pela proposição de pautas étnico-raciais, que muitas vezes são ignoradas por pessoas não negras por diversas razões. Quanto à definição de pautas, destacou-se no estudo o registro de que “assuntos étnico-raciais não têm relevância para os veículos”.

Outra mudança importante movida pela diversidade e inclusão é poder contar cada vez mais com fontes negras para a construção das narrativas pela imprensa. “Quando se tem jornalistas negros na redação, que possuem uma reflexão sobre isso, certamente vão trazer para as matérias e reportagens fontes negras”, afirma Cruz. A jornalista também integra o Coletivo Lena Santos, iniciativa de Minas Gerais que foi convidada pela Abraji para elaborar a mesa “Diversificando as fontes: como empretecer a cobertura e tornar o jornalismo mais plural”, do 16º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. 

Além disso, uma maior diversidade racial nas redações se mostra fundamental para que as produções jornalísticas tenham um enfoque mais consciente, sobretudo em pautas que tratem da população negra. “Muitas vezes as questões étnico-raciais são tratadas com um viés limitador, para não dizer estigmatizante. A presença de jornalistas negros permite questionar isso. Em vários momentos, tive a oportunidade de conversar com colegas de redação sobre uma determinada abordagem de um tema ou personagem”, contou Cruz. 

Eduardo Ribeiro pondera que o jornalismo é essencial no enfrentamento à desigualdade racial no país, tendo em vista a sua missão de formar e informar. “O jornalismo precisa ser um aliado na formação de uma sociedade diversa, que combata os preconceitos, que seja antirracista. E por isso mesmo ele tem de dar o exemplo, ser um agente no combate às injustiças seculares que têm se abatido sobre os negros”.

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