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Processo

Ditadura tentou incriminar Caetano por disco que nunca fez com ‘homenagem’ a Che Guevara

Reportagem do site El País publicou detalhes do processo sobre a prisão do cantor baiano em 1968, tema do documentário Narciso em Férias

14/09/2020 13h32
Por: Valeria Alves
Foto/Reprodução
Foto/Reprodução

Em 1968, o disco com a canção Che, de Caetano Veloso, foi apreendido pela Polícia Federal por fazer propaganda subversiva socialista, homenageando o guerrilheiro da Revolução Cubana. Na época, Caetano era integrante do “Grupo Baiano” e de outras organizações constituídas “de cantores e compositores de orientação filocomunista”. Em show na boate Sucata, Caetano e Gilberto Gil cantaram uma paródia do Hino Nacional em “ritmo de Tropicália”.

Reportagem publicada pelo site El Paísmostra, no entanto, que nada disso é verdade, embora tais afirmações estejam  presentes num documento oficial de 330 páginas, referentes ao processo que o Estado brasileiro abriu contra Caetano. O músico baiano foi preso no dia 27 de dezembro de 1968, 14 dias depois da promulgação do AI-5, que marcou o endurecimento da ditadura civil-militar instaurada em 1964.

Os papéis serviram de ponto de partida para o documentário Narciso em Férias, de Renato Terra e Ricardo Calil, que teve sua estreia mundial no dia 7 de setembro no Festival de Veneza. O filme, porém, não revela todo o conteúdo da documentação —aos quais o El País teve acesso.

“Não houve disco ou canção Che. Não houve um “Grupo Baiano” —essa era tão-somente a forma como a imprensa se referia ao grupo de cantores e compositores recém-chegados da Bahia. Não houve paródia do hino nacional (nunca existiu, tampouco, um “ritmo de Tropicália”)”, menciona a publicação.

Em trecho inédito da entrevista de Caetano aos diretores de Narciso em Férias, o artista comentou sua perplexidade com a acusação: “É uma loucura, nunca fiz nenhuma música chamada Che, não houve apreensão de disco meu. Nenhuma apreensão de discos meus naquela época. Inverdades, falta de cuidado com a averiguação dos fatos, não é possível um troço desses”, diz Caetano.

“Há uma remota possibilidade de que alguém supusesse que Soy Loco Por ti America, que não é de minha autoria mas foi composta por encomenda minha por Gil e Capinam… Aquilo tem um esboço de homenagem a Guevara, mas como piada interna.”

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